Estava sozinho no hospital.
Apenas a atendente a acompanhar-me no hall de entrada.
Era quase meia-noite.
Uma corisa alérgica fazia-me gastar todo o estoque de
lenços de papel disponível.
__ Você vai ficar esperando? - perguntou a moça, como
querendo dizer: não há nada para você fazer aqui.
__ Vou - foi só que consegui responder pelo cansaço do dia
agitado.
Pela cabeça, angústias, preocupações imediatas e muitos
sonhos.
Mais ou menos aos quinze minutos do dia 05 de setembro,
um colega enfermeiro me avisou: havia nascido e estava bem.
O hospital público não permitia vê-la.
Não aguentei. Dei a volta pelo pronto-socorro e consegui
chegar à janela do berçário.
Muitos bebês chorando. A enfermeira gentil voltou do seu
jantar e pegou-a no colo. A pulseirinha identificava o nome da mãe.
Fitei-a nos olhos por um bom tempo. Na minha imaginação ela
também me olhava.
Outra enfermeira chegou. As duas conversaram, o que me deu
mais tempo para observar aqueles olhinhos.
Devem ter sido alguns minutos, mas, para mim, é claro que se
trata de uma experiência de eternidade.
Voltei pra casa andando rápido pela noite escura. A
felicidade transbordava em mim. Não havia mais cansaço ou preocupações.
Sabia que estava preso por aqueles pequenos olhos e que ali
se confirmava um compromisso para sempre.
Nestes últimos 24 anos ainda não fiz por merecer tamanho
presente.
Obrigado por você aceitar vir a este mundo e iluminar as
nossas vidas.
Jean Moreno

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